O santo doutor viveu no século V d.C., um tempo tão distante do nosso que não há comparação possível. Uma coisa, no entanto, podemos saber através dos livros que escreveu. Agostinho vivenciou uma profunda inquietação em face do que presenciava. Naquela época ainda se discutia a identidade de Cristo, não havia certeza se era de fato humano ou divino, ou se tinha as duas naturezas. Mais que isso, Agostinho estava realizando a própria conversão, pois era seguidor da doutrina da Maniqueu, a que veio a ser conhecida como maniqueísmo - a dualidade do bem e do mal.
Pelo que se conhece, ele pensou que havia chegado o tempo em que tudo já estava revelado, que homens e mulheres se equivaliam em divindade e que as diferenças corporais seriam também suplantadas pela força mental ou espiritual. Assim como todos, ele também vivia o seu conflito interior, para o qual não havia uma revelação. Como um fantasma que no final de seu purgatório não encontra algo que o pudesse absolver nem mitigar a culpa que carregou além da morte. Agostinho foi um exemplo para o seu tempo e para o nosso pela intensidade de suas indagações e pela verdade que legou em seus escritos.
O nosso tempo também não se comporta de acordo com a doutrina do bem e do mal. Está muito mais complexo que a dualidade originária. Não se enquadra numa explicação simplista mesmo que as grandes narrativas tenham perdido sua força explicativa. Isso só quer dizer que é preciso ir além do maniqueísmo. Mas na falta de parâmetros superiores, tais como vislumbrava Agostinho, nós afrontamos a ordem natural com uma arrogância inexplicável. Na falta de referências, medimos as atitudes dos homens de acordo com nossas próprias medidas e nisso sucumbimos no relativismo.
Parece que somos como o fantasma que não encontra redenção alguma. Não há revelação além daquela que já conhecemos e a crise se instala por que é inaceitável a ordem que o homem impõe ao seu semelhante. Eis o que vem a ser a falta de fundamento, a crise do paradigma. Eis o que é estar à sombra de Agostinho.

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