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terça-feira, 18 de setembro de 2018

A Criatividade, segundo Walt Whitman

Sabedoria para artistas e líderes fortes, para futuros professores e músicos vindouros.

As pessoas mais arrependidas do mundo ”, escreveu Mary Oliver em sua bela reflexão sobre o compromisso central da vida criativa,“ são aquelas que sentem o chamado ao trabalho criativo, que sentem seu próprio poder criativo repousando e revoltando, e não dão a ele nenhum poder, nem tempo.”
Uma grande parte desse poder, e de sua dimensão temporal, é uma curiosidade franca sobre o mundo - uma disposição de absorver seus aspectos variados e muitas vezes contraditórios, para extrair deles a concentração da verdade que chamamos arte. Rainer Maria Rilke sabia disso quando contemplou a natureza combinatória da criatividade:

“É preciso ver muitas cidades, homens e coisas. É preciso conhecer os animais, é preciso sentir como os pássaros voam e conhecer o gesto com que as pequenas flores se abrem pela manhã ... É preciso ter lembranças de muitas noites de amor ... Mas é preciso também estar ao lado dos moribundos, é preciso ter sentado ao lado dos mortos no quarto com a janela aberta ..."

Um século e meio antes de Oliver e muitas décadas antes de Rilke, outro grande poeta e padroeiro da verdade voltou seu olhar singular para a questão da criatividade. Walt Whitman (31 de maio de 1819 - 26 de março de 1892) explora esse mistério permanente em alguns versos cerca de trezentas páginas em Leaves of Grass - a obra-prima de 1855 que quase quebrou sua carreira antes de fazê-lo, então nos deu seu conselho eterno sobre viver uma vida vibrante e recompensadora.
Sob o título “Leis da Criação”, dirigidas a “artistas e líderes fortes, Whitman define os riscos e os elementos essenciais do trabalho criativo:

"Todos devem ter referência ao conjunto do mundo e a verdade compacta do mundo; Não haverá assunto muito pronunciado - Todas as obras vão ilustrar a lei divina das indirecções."

Ecoando o influente ideal de autoconfiança de Emerson - Afinal, Emerson era o grande herói de Whitman e a pessoa em grande parte responsável por seu sucesso como artista - acrescenta:

"O que você acha que é a criação? O que você acha que vai satisfazer a alma, exceto andar livre e não possuir um superior? O que você acha que eu insinuei a você em uma centena de maneiras, mas esse homem ou mulher é tão bom como Deus? E que não há Deus mais divino do que você mesmo? E isso é o que os mitos mais antigos e mais novos finalmente significam? E que você ou qualquer um deve se aproximar de criações através de tais leis?

Fonte: https://www.brainpickings.org/2018/09/14/walt-whitman-on-creativity/

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

De como a economia pode se beneficiar com as analogias médicas



Comparações com a anatomia humana são uma boa alternativa para explicar os problemas gerais dos organismos sociais, sobretudo nos seus aspectos sociais mais essenciais, como a economia e a irrigação ou circulação sanguínea para os seres humanos. Esta analogia médica com certeza pode ajudar a entender porque o Brasil está como está, enquanto o resto do mundo se questiona sobre o futuro, envolvidos em incertezas cada vez mais profundas.

Antigamente, cerca de 10, 15 anos, não mais, se falava em esgarçamento do tecido social, o que pode ser melhor entendido como uma distensão muscular: as fibras se rompem e enfraquecem o tecido, o qual, no entanto, permanece vivo, embora fora de ação por algumas semanas. O esgarçamento do tecido social tem outros efeitos concretos, entre os quais o excesso de individualismo e a violência.

Quando ocorre algo assim, expresso pelos seus efeitos mais dramáticos (o aumento da violência), o remédio é a ação enérgica do poder estatal, seja na repressão direta, por meio da polícia, seja na prevenção, por meio de políticas públicas. Nestas situações extremadas, a sociedade pode sentir fortes abalos, mas poderá se recuperar depois de algumas semanas.

A situação muda quando, já nos dias atuais, o que ocorre é o necrosamento do tecido social, por falta de circulação da riqueza. Assim como os músculos precisam de oxigênio, a sociedade, as comunidades precisam de renda e acesso aos bens essenciais. Quando isso não ocorre, equivale a um colapso das relações sociais elementares, da convivialidade e da coexistência pacífica. O tecido social não só se rompeu como deixou de ser irrigado, seja pelos bens como pela riqueza, e agora dá sinais de morte gradual - a gangrena.

As atuais políticas da Comunidade Europeia estão restringindo a renda de amplas camadas da população, em vários países, o que já causa enormes prejuízos econômicos e sociais, a maioria irreversível ou, na melhor das hipóteses, que só irá se regenerar após décadas, quando uma nova geração vier a substituir a atual. Mas haverá tempo para tanto?

Haveria se as políticas públicas fossem do tipo compensatória e anti-cíclicas, a exemplo do que foi feito no Brasil, especialmente após a crise de 2008. A manutenção e a defesa do mercado nacional foi decisiva não só para preservar os empregos locais como para aumentar a distribuição da renda, o que por sua vez realimentou o círculo virtuoso do mercado interno. Seguindo a analogia, o aumento do tônus muscular da sociedade, através do aumento da circulação de riqueza, garante a força e a mobilidade do conjunto do País. O Brasil se move com autonomia em meio a crise mundial porque manteve seus músculos aquecidos e bem alimentados, com pleno emprego e distribuição de renda.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

a implosão do jornalismo convencional


Em 2006 escrevi esta nota para um blog, mas não publiquei. Hoje, vejo que ainda tem sentido.
"
Provocação inicial para um debate ou conversação mais profunda sobre o estágio presente e futuro dos meios de comunicação, sobretudo para os países do 3º mundo. Após a revolução tecnológica do suporte (internet) veio a revolução do modus operandi, da linguagem e da dinâmica interna do processo de produção do conhecimento. 
O caráter democratizante e emancipatório deste novo meio de comunicação abre novas frentes de batalha no interior das disputas simbólicas.

A explosão dos blogs e a facilidade de publicar na web trouxe muitas escolhas e novas perguntas interessantes. Será tão fácil fazer jornalismo de qualidade como andam supondo? Parece que não. Examinando outros momentos de grande efervescência cultural, provocados pela popularização de novas técnicas, podemos perceber similaridades. São ciclos de expansão e contração, ruptura e acomodação, avanços e recuos. Foi assim nos primeiros passos da imprensa, que evoluiu dos panfletos para o jornalismo crítico, iluminista e republicano. 
A possibilidade de se dirigir a plateias ou públicos cada vez maiores não parou de crescer, como atestam o desenvolvimento dos meios de comunicação eletrônicos (rádios e televisão) e agora com os meios digitais e todas as suas implicações e conseqüências. Assim, a aparente facilidade de publicação, típica das fases de expansão, com todos os seus excessos e distorções, deverá, em breve, passar para a fase de estabilização e depuração, apesar da velocidade do processo continuar a aumentar.
Os leitores aí dos EUA podem deixar comentários em inglês.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Algumas explicações atuais


Bem, aqui estou, alheio ao público em geral, abrindo o jogo na internet. Escrever para o público incerto e disperso num enorme universo pode ser um exercício de liberdade de pensamento. Claro que pode, mas precisa ter alguma mensagem. No caso atual, aqui no Brasil, vivemos o período eleitoral, quando iremos votar para presidente da república, governadores e eleger representantes para o Congresso Nacional. Seria o momento de falar de projetos para o futuro, em termos de acordos políticos e programáticos. Poderia se discutir também os conceitos e as ideias, mas o que se vê não é bem isso.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A paranóia como política de estado

Ou a história do medo de quem tem telhado de vidro. Para refletir e considerar. Se é o medo que dissemino através de diferentes ações, como posso esperar que retornem reações amistosas? Sendo assim, é preciso, dizem eles, proteger os interesses nacionais, que são os interesses da classe dominante. Se vê que essa construção é frágil e não resiste à análise.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O poder corrompe

Às vezes tenho a impressão nítida de que as grandes emissoras de televisão do Brasil se consideram não somente as donas da verdade mas donas do poder supremo, donas dos destinos do país. Em meio as campanhas permanentes em prol de sua ideologia consumista-elitista, não escondem seus intentos de dominação total. Contudo, é crescente o número daqueles que resistem ao seu poder e influência, mas o estrago já está feito. Algumas gerações já estão comprometidas na sua capacidade crítica. Se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. Dito isso, se estão preocupados (sic) com a corrupção na política, procurem os corruptores - a raiz do problema. Façam a auto-crítica.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A agonia do Império

Existem muitas hipóteses que tentam explicar a QUEDA do Império Romano em 476 d.C. sendo a mais difundida a invasão dos bárbaros. Mas há outros fatores que explicam a ruína do império, como o expansionismo territorial, a inflação e a regressão cultural. Junte tudo isso à arrogância e teremos um quadro mais completo do que sucedeu naquela época. Qualquer semelhança com o que ocorre atualmente não é mera coincidência, pois a história se repete, ora como farsa, ora como tragédia.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Da sabedoria das palavras

Se tu, enquanto ser humano, vê que o mundo está em chamas, faça com que tuas palavras sejam como água, para debelar o fogo. Agora, nessa mesma condição, se o mundo se mostra frio e indiferente, faça com que tuas palavras incendeiem corações e mentes, para aquecer e afastar o torpor da inércia. Só não podemos acreditar que nossas palavras, proferidas ou não, sejam indiferentes ao mundo.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O que é serendipity

Serendipity, vem do inglês; é traduzido por serendipismo ou serendipidade. Termo equivalente a descobrimento acidental, ou "atirar no que se vê e acertar no que não se vê". Baseia-se no conto "Os Três Príncipes de Serendip", que saíram pelo mundo em busca de alguma coisa; não descobriram exatamente o que procuravam, mas encontraram muitas outras possivelmente mais úteis do que as que buscavam. O autor afirma que  a serendipidade, ou serendipismo, é uma das principais virtudes da pesquisa, e que a mente preparada deve estar alerta para a sua ocorrência. Tal é acepção que Aristóteles concebia ao preconizar que "a sorte ajuda aquele que sabe seu ofício". Mas é preciso estar bem preparado para discernir o que, de fato, tem valor.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O portfolio de Aristóteles

Na estética de Aristóteles encontra-se uma das melhores fontes de estudo do método. Em sua Poética, o filósofo mostra a importância do 'como fazer' bem feito desde um poema até uma ponte. A poiesis faculta ao Homem ver para dentro do processo e desde aí enunciar sucessivamente o modo como procedeu. Nem sempre, no entanto, resulta bem esta elaboração a posteriori, pois a memória falha em registrar detalhes que podem ser importantes depois para entender o modus operandi. Melhor, penso eu, é ter e seguir um protocolo de operações coordenadas entre si, como subsídios, dados preliminares e todo tipo de suporte prévio à execução de um projeto.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

À sombra de Agostinho

O santo doutor viveu no século V d.C., um tempo tão distante do nosso que não há comparação possível. Uma coisa, no entanto, podemos saber através dos livros que escreveu. Agostinho vivenciou uma profunda inquietação em face do que presenciava. Naquela época ainda se discutia a identidade de Cristo, não havia certeza se era de fato humano ou divino, ou se tinha as duas naturezas. Mais que isso, Agostinho estava realizando a própria conversão, pois era seguidor da doutrina da Maniqueu, a que veio a ser conhecida como maniqueísmo - a dualidade do bem e do mal.
Pelo que se conhece, ele pensou que havia chegado o tempo em que tudo já estava revelado, que homens e mulheres se equivaliam em divindade e que as diferenças corporais seriam também suplantadas pela força mental ou espiritual. Assim como todos, ele também vivia o seu conflito interior, para o qual não havia uma revelação. Como um fantasma que no final de seu purgatório não encontra algo que o pudesse absolver nem mitigar a culpa que carregou além da morte. Agostinho foi um exemplo para o seu tempo e para o nosso pela intensidade de suas indagações e pela verdade que legou em seus escritos.
O nosso tempo também não se comporta de acordo com a doutrina do bem e do mal. Está muito mais complexo que a dualidade originária. Não se enquadra numa explicação simplista mesmo que as grandes narrativas tenham perdido sua força explicativa. Isso só quer dizer que é preciso ir além do maniqueísmo. Mas na falta de parâmetros superiores, tais como vislumbrava Agostinho, nós afrontamos a ordem natural com uma arrogância inexplicável. Na falta de referências, medimos as atitudes dos homens de acordo com nossas próprias medidas e nisso sucumbimos no relativismo.
Parece que somos como o fantasma que não encontra redenção alguma. Não há revelação além daquela que já conhecemos e a crise se instala por que é inaceitável a ordem que o homem impõe ao seu semelhante. Eis o que vem a ser a falta de fundamento, a crise do paradigma. Eis o que é estar à sombra de Agostinho.